Muito antes de trabalhar como benzedeira, tive a oportunidade de conhecer outras mulheres com o mesmo ofício que o meu e uma das características que mais me chamou atenção nessas mulheres foram a autenticidade e a convicção.
Mesmo aquelas que frequentavam uma igreja, centro ou terreiro, possuíam uma fé independente. Altares sincréticos mesmo que a igreja ou o terreiro condenassem e sua própria maneira de conduzir a vida espiritual.
Hoje seguindo esse exemplo, percebo que essas mulheres têm uma pitada de rebeldia simplesmente porque elas são muito independentes. Essa independência vem dessa voz interior, seus guias falando ao coração delas “siga por aqui”, “esse é o caminho certo”, mesmo o pai de santo, o pastor ou padre dizendo o contrário.
Essa voz é mais forte que tudo. Pode reparar. Benzedeiras tem um lado de solitude. Isso não quer dizer que sejam seres solitários. Como disse: elas até podem frequentar uma comunidade espiritual e fazer parte do grupo, mas precisam se sentir, ao mesmo tempo que pertencente, separada do todo. Elas precisam desse espaço pro dom se manifestar.
Elas conversam com o mundo espiritual constantemente. Elas ouvem a natureza. E isso só é possível em momentos de introspecção. Pode reparar: mesmo aquelas benzedeiras que vivem rodeadas de gente, sempre arruma um jeito de fugir pra um cantinho pra se escutar.
COMO FOI PARA MIM
Eu sempre senti que meu trabalho era com plantas. Mas por muito tempo quis também pertencer a uma comunidade espiritual. Isso não aconteceu e hoje, além de entender o motivo me sinto em paz com isso.
Só que estava fora de cogitação deixar de praticar a minha fé. Eu hoje cultuo tudo que acredito dentro da minha casa e em conexão com a natureza. Não acho que o meu caminho é mais estreito por ser dessa forma, apenas diferente.
Decidi fazer esse texto para encorajar aquelas pessoas que também desejam praticar a espiritualidade de forma mais independente, falando sobre alguns bloqueios e como avançar.
TUDO É ESPIRITUAL
Primeiro precisamos ter em mente que somos seres espirituais tendo uma experiência humana. Então tudo aquilo que você faz em seu dia a dia, está alimentando a sua vida espiritual. Principalmente aquilo que é feito com autenticidade e prazer genuíno. Pode ser dançar, desenhar, fazer cálculos matemáticos, cozinhar… tudo que te coloca em estado de flow faz com que Deus fique mais perto de você. Então se você tem hobbies que te deixam nesse estado de graça, você já possui uma prática espiritual, não importa se dizem que “isso não é de Deus”. Eu por exemplo me sinto conectada a Deus quando danço funk proibidão, só pra citar um exemplo um pouco bizarro.
NÃO SEJA SUPERSTICIOSO
Superstições são crenças sem base racional que te levam a criar falsas obrigações. Acontece que muitas superstições são baseadas em coisas sem nenhum sentido não apenas lógico mas também espiritual. E pior: a pessoa supersticiosa passa a viver em função de medos que coisas ruins aconteçam caso ela não siga o que manda a superstição. Vão acumulando essas práticas – algumas nem sabem de onde veio – e exaurindo a energia espiritual sem qualquer benefício próprio.
Eu não sou radical nesse ponto: siga apenas aquela superstição que te toca de alguma forma e que você realmente sente que eleva sua frequência. Se observe. Eu prefiro substituir superstições por práticas de autocuidado espiritual simples. Como fazer um pequeno ritual de proteção antes de dormir e ao acordar.
NÃO TENHA MEDO
Uma das coisas que mais vejo são pessoas que travam na hora de praticar a espiritualidade de forma mais independente porque têm medo que algo ruim aconteça, outras têm medo de fazer alguma coisa errada. A melhor maneira de superar esse medo é simplificar. Você vai perceber que não há motivo para ter medo. O medo aprisiona muitas pessoas em espaços que elas gostariam de sair. Respeite aquilo que te traz medo e faça aos poucos. Quando for avançando vai perceber que tem muito mais poder do que imaginava e o medo vai ficando pra trás.
SIMPLIFIQUE
Essa é a parte que mais gosto na hora de praticar uma espiritualidade mais livre. Meus rituais são simples. E isso não faz deles menos poderosos. Principalmente por praticar a espiritualidade de maneira mais solitária, simplificar faz com que eu não deixe de realizar meus rituais.
CONVERSE COM DEUS DO SEU JEITO
Quando temos uma espiritualidade independente a gente se sente livre para conversar com Deus da forma como concebemos essa energia. Não há necessidade de seguir uma forma pré determinada. A não ser que faça sentido pra nós. Eu bato altos papos com Deus como se estivesse conversando com alguém mais sábio que eu e que confio muito. De pedidos de misericórdia a agradecimentos.
COMO COMEÇAR
Isso vai depender muito do que você sente que é espiritualidade pra você. Eu gosto de acender velas, de montar altares, de dançar para as divindades, fazer e tomar banhos de ervas, preparar perfumes…
A coisa mais importante é sentir, se conectar.
Cuide da sua energia!

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Mona Soares é graduada em farmácia pela UFBA e especialista em manipulação cosmética pela ABEFARMA.
Estuda plantas medicinais, perfumaria mágica, bruxaria, aromaterapia, cosméticos e afins desde 1999.
É benzedeira e mentora de alquimistas.
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Foto de capa: Gabriela Brito